Le Corbusier | O Escritório Sou Eu !

Nesta parte de uma entrevista concedida por Lúcio Costa no início da década de 1980, ele fala sobre detalhes curiosos da estadia de Le Corbusier no Brasil e sua relação com os arquitetos brasileiros, inclusive sobre a influência sobre Oscar Niemeyer, então um desconhecido.

Fala também sobre o trabalho pessoal e não colaborativo de Le Corbusier, onde revela que, o projeto final da Casa do Brasil na Universidade de Paris, que é atribuído à ele, Lúcio Costa e Le Corbusier, na verdade, em sua versão final, “é uma coisa toda dele”, ou seja, de Lê Corbusier.casa-do-brasil-universidade-de-paris-250px

AR — Dr. Lúcio, e Lê Corbusier no Rio? Como foi a estadia dele aqui? E verdade que ele era muito namorador?

LC — Não era bem namorador, gostava de experiências. Estava num mais tropical e queria conhecer as mulatas. Mas tinha muito medo de doença.

AR — Alguém contou que ele ia nos cabarés da Lapa carregando debaixo do braço um jornal com a foto dele, para mostrar às moças, na hora de tirar para dançar. Uma história que revela um certo senso de humor e parece contradizer a fama de carrancudo que ele sempre teve. Como era isso? Ele era do tipo que levava tudo a sério ou não?

LC — Levava a sério mas era inteligente, aberto, sem fronteiras, não era um sujeito tacanho.

AR — No Rio, Lê Corbusier trabalhou aonde? No seu escritório?

LC — É, no escritório do Edifício Castelo. Nós tínhamos um escritório lá, ao qual ele logo se habituou. Em 4 semanas fez um projeto para a Cidade Universitária, ali atrás da Quinta (Nota: Quinta da Boa Vista), fez 6 ou 7 conferências, fez um projeto para o Ministério (Nota: MEC), num terreno à beira-mar, e ainda procurou adaptar o projeto ao terreno definitivo, sem conseguir.

E além de tudo nos deixou de quebra o Oscar Niemeyer. Porque ele não existia antes da vinda do Lê Corbusier, não existia absolutamente. E veio aquela questão do trabalho no Ministério, depois eu o levei a Nova York, para o Pavilhão (da Feira Internacional de 1939), veio a Pampulha. Foi a presença de Lê Corbusier que o deixou, de quebra.

AR — O Lê Corbusier achava o Niemeyer um jovem promissor?

LC — Não. Ele gostava do Oscar porque ele às vezes o ajudava a fazer os desenhos, ajudava a fazer os bonecos que aparecem nas perspectivas. Dos vários arquitetos, tinha um — o Oscar — que toda hora estava à mão e pronto a fazer qualquer coisa. Mas o Leão, o Carlos, ele gostava muito do Carlos. Ele sempre perguntava:  “Et Léon, comment va-t-il?” (Nota: E o Leão, como vai?). O Carlos era o mais inteligente, uma pessoa muito culta, de boa base. O Oscar, na época, era tímido, não tinha a menor comunicação e recebeu aquilo em cheio, aquele oxigénio todo. Aí é que revelou o que era de fato, o que estava incubado.

AR — Trabalhando com tantas equipes diferentes, o Lê Corbusier conseguia trabalhar em colaboração?

LC — Não, ele era inteiramente pessoal. Mesmo a casa do Brasil, em Paris, que é dada como um projeto em colaboração comigo é uma coisa toda dele. Eu fiz um anteprojeto e como tinha que desenvolver o projeto me lembrei de entregar não a ele mas ao atelier dele, ao Wogenscky que chefiava o escritório. Então disse a ele para desenvolver com toda a liberdade. Mas um belo dia estava no hotel e recebo um telefonema do Sul da França, do Lê Corbusier, que me diz: “Como você entregou ao atelier, o atelier sou eu, não tem cabimento entregar ao atelier.” Então eu disse: “Achei despropositado entregar a você para desenvolver um projeto meu. Achei falta de sensibilidade.” E ele: “Não, não, eu é que vou ficar por trás disso.” E fez um projeto novo. Houve muita exigência do pessoal da administração, então ele fez um projeto completamente novo, diferente.

Como sugestão, veja mais fotos da casa do Brasil na Universidade de Paris ou Maison du Brésil onde são mostradas inúmeras fotos, tanto do exterior (fachadas) assim como do interior (corredores, aposentos, salas de estudo, dormitórios, pequeno auditório, etc).

Referências e fonte principal de pesquisa: Arquitetura Revista, de 1987

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