Despedida de Le Corbusier por Lúcio Costa

Nesta parte da entrevista de Lúcio Costa, concedida na segunda metade da década de 1980, ele descreve sua despedida de Le Corbusier, quando ele compareceu aos seus funerais e discorre sobre as homenagens ao velho Mestre.

Comenta também sobre a  dupla nacionalidade cultural de Le Corbusier  e sua necessidade reconhecimento internacional, mas principalmente de reconhecimento na França onde em vida foi bastante criticado.

AR — E como foi que o senhor soube da morte dele?

LC – Aqui no Rio. No dia seguinte embarquei em companhia de Charlotte Perriand que estava então aqui.

Ele morreu em Roquebrune, uma prainha de pedras perto de Menton. Eu escrevi qualquer coisa sobre isso — vocês talvez tenham lido — explicando que havia uma casa perto do cemitério, uma casa burguesa que era justamente utilizada para as cerimónias de velório. Nós chegamos lá, estava fechada. Havia também dois dominicanos esperando para entrar. Subimos então, a Charlotte Perriand, eu e os dois dominicanos, uma escada típica burguesa, aquele mau gosto, aquela coisa, e chegando em cima havia uma sala vazia, iluminada por velas, e o caixão onde ele estava, um caixão horrível. Uma coisa tão chocante, aquele ambiente negativo, que eu fiquei com aquilo atravessado.

la-tourrete-2-250pxMas felizmente na viagem para Paris pernoitamos em La Tourette e aí a cerimónia que houve na igreja, naquela nave solene, foi uma coisa tocante. A igreja fica numa encosta em declive e quando chegamos os padres dominicamos vieram ao nosso encontro. Estava chuviscando, era noitinha, e eles vieram devagar, naquele passo lento, eterno, de religioso. Passo que não fez barulho. Puseram o caixão nos ombros e desceram o caminho no talude para a entrada. Na nave ficaram todos alinhados e o Superior leu o elogio do arquiteto que tinha feito o convento deles e que agora estava ali. Cerimónia simples e digna que apagou aquela impressão horrível lá de Menton.

AR — Lê Corbusier era um homem religioso?

LC — Justamente, ele não era religioso, mas uma vez, quando um repórter perguntou como é que ele, sendo ateu, podia projetar uma igreja como aquela de Ronchamp, ele respondeu:  “Je ne suis pás religieux, mais j’ai lê sens du sacré.” (Nota acrescida neste blog | Tradução: “Eu não sou religioso, mas tenho um sentido do sagrado“)

la-tourrete-250pxFinalmente chegamos a Paris. Estavam todos lá, naquele corredor, com a escada ao fundo, em baixo do atelier. Porque o atelier era uma antiga casa de jesuítas, era como se fosse uma galeria de 5 metros de largura, mas muito comprido, e em baixo dele era o corredor de acesso. Quando nós chegamos estavam todos lá, uma multidão, e no fundo puseram uma bela tapeçaria dele, preta e vermelha, e armaram a essa para botar o caixão.

E depois houve no Louvre a cerimónia oficial que muitos dos seus colaboradores não compreendem:  desconheciam de fato o que ele tinha feito pelo país, pela França.

Ainda hoje há quem insista em tratá-lo como arquiteto suíço em vez de francês. Ele ja explicou muito isso. A família dele toda emigrou para a França no tempo dos confrontos de religião, mas continuou cultivando a tradição francesa, apesar de radicada na Suíça. De modo que, para ele, foi apenas uma retomada da nacionalidade original. Ele levava muito em conta o louvor mundial, fazia muita questão de ser admirado, ser querido, ser amigo. Mas isso não o satisfazia, ele queria o louvor do país dos seus ancestrais, dos seus antepassados, dos franceses que sistematicamente o ridicularizavam e combatiam.

Até que chegou o momento dele ser reconhecido e homenageado com a grand-croix da Legião de Honra. Diante desse louvor, da cerimónia do Louvre, do discurso de Malraux, os amigos dele, os colaboradores, começaram a se perguntar: ‘ ‘Foi combatido a vida toda e agora essa pompa, como é que pode, depois de tanta coisa” Na realidade eles o desconheciam, porque no fundo, era apenas isto que ele queria: reconhecimento — é a palavra.

Referências e fonte principal de pesquisa: Entrevista concedida à Arquitetura Revista na segunda metade da década de 1980.

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