Lúcio Costa e Mies Van der Rohe

Lúcio Costa fala de seu encontro com Mies Van der Rohe, deixando transparecer ter existido pouca simpátia mútua, ou quem sabe incompreensão cultural (?).

E segundo meu ponto de vista (sou fã de Mies Van der Rohe), L. Costa chega a cometer um heresia em certo momento ao chamar Mies de “artista de uma nota só”.

Ironicamente falando, e com um certo bom humor, será que se Mies Van der Rohe tivesse tecido muitos elogios ou fosse tagarela como Corbusier, se tornaria um “artista de muitas notas” aos olhos de Lúcio Costa?

AR — E o Mies van der Rohe?

LC — O Mies era mais sóbrio, puro e requintado.

AR — Menos artista, talvez?

LC – Não. Mas era artista, digamos, de uma nota só. Visava sempre a contida elegância e a qualidade. O Mies eu conheci aqui, quando ele veio julgar uma Bienal. Nós estávamos com um escritório na sobreloja do Ministério da Educação, desenvolvendo o plano de Brasília. Como ele estava olhando aquelas plantas assim calado, eu então me lembrei que um auxiliar do Oscar havia feito uma maquete muito bonita da Praça dos Três Poderes. A maquete estava no Leblon, numa casa alugada, numa esquina perto de onde eu moro e eu disse:  “O senhor querendo eu tenho uma maquete que dá uma ideia melhor, posso levá-lo onde está.” Então peguei o carro e o levei até lá. Me lembro muito bem. Ele entrou, era no térreo. Ele se agachou para apreciar melhor, a maquete na altura dos olhos, ele olhava para o horizonte como se estivesse chegando lá e olhou com muita atenção. Depois, na saída disse apenas:  “Muito obrigado por me ter trazido aqui.” Foi o máximo que ele conseguiu dizer.

AR — Era uma figura assim…

LC — Sóbria.

AR — Meio soturna, talvez?

LC — Fechada e enigmática. Agora ficam considerando as últimas obras dele, aqueles prismas envidraçados, mas os projetos iniciais não são tão retangulares, são como aqueles jarros de flores de Aalto, e depois aquela casa fantástica — a Thugendat — e o pavilhão de Barcelona. Mas a fase americana dele foi fundamental porque desenvolveu a tecnologia da construção metálica para fazer fachadas de curtain-wall, que ele resolve de uma maneira impecável, com maineis sacados. O I.I.T, aqueles pavilhões para a Universidade, intencionalmente contidos. Era uma grande figura.

Referências e fonte principal de pesquisa: Trecho de entrevista concedida à Arquitetura Revista na segunda metade da década de 1980.

Despedida de Le Corbusier por Lúcio Costa

Nesta parte da entrevista de Lúcio Costa, concedida na segunda metade da década de 1980, ele descreve sua despedida de Le Corbusier, quando ele compareceu aos seus funerais e discorre sobre as homenagens ao velho Mestre.

Comenta também sobre a  dupla nacionalidade cultural de Le Corbusier  e sua necessidade reconhecimento internacional, mas principalmente de reconhecimento na França onde em vida foi bastante criticado.

AR — E como foi que o senhor soube da morte dele?

LC – Aqui no Rio. No dia seguinte embarquei em companhia de Charlotte Perriand que estava então aqui.

Ele morreu em Roquebrune, uma prainha de pedras perto de Menton. Eu escrevi qualquer coisa sobre isso — vocês talvez tenham lido — explicando que havia uma casa perto do cemitério, uma casa burguesa que era justamente utilizada para as cerimónias de velório. Nós chegamos lá, estava fechada. Havia também dois dominicanos esperando para entrar. Subimos então, a Charlotte Perriand, eu e os dois dominicanos, uma escada típica burguesa, aquele mau gosto, aquela coisa, e chegando em cima havia uma sala vazia, iluminada por velas, e o caixão onde ele estava, um caixão horrível. Uma coisa tão chocante, aquele ambiente negativo, que eu fiquei com aquilo atravessado.

la-tourrete-2-250pxMas felizmente na viagem para Paris pernoitamos em La Tourette e aí a cerimónia que houve na igreja, naquela nave solene, foi uma coisa tocante. A igreja fica numa encosta em declive e quando chegamos os padres dominicamos vieram ao nosso encontro. Estava chuviscando, era noitinha, e eles vieram devagar, naquele passo lento, eterno, de religioso. Passo que não fez barulho. Puseram o caixão nos ombros e desceram o caminho no talude para a entrada. Na nave ficaram todos alinhados e o Superior leu o elogio do arquiteto que tinha feito o convento deles e que agora estava ali. Cerimónia simples e digna que apagou aquela impressão horrível lá de Menton.

AR — Lê Corbusier era um homem religioso?

LC — Justamente, ele não era religioso, mas uma vez, quando um repórter perguntou como é que ele, sendo ateu, podia projetar uma igreja como aquela de Ronchamp, ele respondeu:  “Je ne suis pás religieux, mais j’ai lê sens du sacré.” (Nota acrescida neste blog | Tradução: “Eu não sou religioso, mas tenho um sentido do sagrado“)

la-tourrete-250pxFinalmente chegamos a Paris. Estavam todos lá, naquele corredor, com a escada ao fundo, em baixo do atelier. Porque o atelier era uma antiga casa de jesuítas, era como se fosse uma galeria de 5 metros de largura, mas muito comprido, e em baixo dele era o corredor de acesso. Quando nós chegamos estavam todos lá, uma multidão, e no fundo puseram uma bela tapeçaria dele, preta e vermelha, e armaram a essa para botar o caixão.

E depois houve no Louvre a cerimónia oficial que muitos dos seus colaboradores não compreendem:  desconheciam de fato o que ele tinha feito pelo país, pela França.

Ainda hoje há quem insista em tratá-lo como arquiteto suíço em vez de francês. Ele ja explicou muito isso. A família dele toda emigrou para a França no tempo dos confrontos de religião, mas continuou cultivando a tradição francesa, apesar de radicada na Suíça. De modo que, para ele, foi apenas uma retomada da nacionalidade original. Ele levava muito em conta o louvor mundial, fazia muita questão de ser admirado, ser querido, ser amigo. Mas isso não o satisfazia, ele queria o louvor do país dos seus ancestrais, dos seus antepassados, dos franceses que sistematicamente o ridicularizavam e combatiam.

Até que chegou o momento dele ser reconhecido e homenageado com a grand-croix da Legião de Honra. Diante desse louvor, da cerimónia do Louvre, do discurso de Malraux, os amigos dele, os colaboradores, começaram a se perguntar: ‘ ‘Foi combatido a vida toda e agora essa pompa, como é que pode, depois de tanta coisa” Na realidade eles o desconheciam, porque no fundo, era apenas isto que ele queria: reconhecimento — é a palavra.

Referências e fonte principal de pesquisa: Entrevista concedida à Arquitetura Revista na segunda metade da década de 1980.

Le Corbusier | O Escritório Sou Eu !

Nesta parte de uma entrevista concedida por Lúcio Costa no início da década de 1980, ele fala sobre detalhes curiosos da estadia de Le Corbusier no Brasil e sua relação com os arquitetos brasileiros, inclusive sobre a influência sobre Oscar Niemeyer, então um desconhecido.

Fala também sobre o trabalho pessoal e não colaborativo de Le Corbusier, onde revela que, o projeto final da Casa do Brasil na Universidade de Paris, que é atribuído à ele, Lúcio Costa e Le Corbusier, na verdade, em sua versão final, “é uma coisa toda dele”, ou seja, de Lê Corbusier.casa-do-brasil-universidade-de-paris-250px

AR — Dr. Lúcio, e Lê Corbusier no Rio? Como foi a estadia dele aqui? E verdade que ele era muito namorador?

LC — Não era bem namorador, gostava de experiências. Estava num mais tropical e queria conhecer as mulatas. Mas tinha muito medo de doença.

AR — Alguém contou que ele ia nos cabarés da Lapa carregando debaixo do braço um jornal com a foto dele, para mostrar às moças, na hora de tirar para dançar. Uma história que revela um certo senso de humor e parece contradizer a fama de carrancudo que ele sempre teve. Como era isso? Ele era do tipo que levava tudo a sério ou não?

LC — Levava a sério mas era inteligente, aberto, sem fronteiras, não era um sujeito tacanho.

AR — No Rio, Lê Corbusier trabalhou aonde? No seu escritório?

LC — É, no escritório do Edifício Castelo. Nós tínhamos um escritório lá, ao qual ele logo se habituou. Em 4 semanas fez um projeto para a Cidade Universitária, ali atrás da Quinta (Nota: Quinta da Boa Vista), fez 6 ou 7 conferências, fez um projeto para o Ministério (Nota: MEC), num terreno à beira-mar, e ainda procurou adaptar o projeto ao terreno definitivo, sem conseguir.

E além de tudo nos deixou de quebra o Oscar Niemeyer. Porque ele não existia antes da vinda do Lê Corbusier, não existia absolutamente. E veio aquela questão do trabalho no Ministério, depois eu o levei a Nova York, para o Pavilhão (da Feira Internacional de 1939), veio a Pampulha. Foi a presença de Lê Corbusier que o deixou, de quebra.

AR — O Lê Corbusier achava o Niemeyer um jovem promissor?

LC — Não. Ele gostava do Oscar porque ele às vezes o ajudava a fazer os desenhos, ajudava a fazer os bonecos que aparecem nas perspectivas. Dos vários arquitetos, tinha um — o Oscar — que toda hora estava à mão e pronto a fazer qualquer coisa. Mas o Leão, o Carlos, ele gostava muito do Carlos. Ele sempre perguntava:  “Et Léon, comment va-t-il?” (Nota: E o Leão, como vai?). O Carlos era o mais inteligente, uma pessoa muito culta, de boa base. O Oscar, na época, era tímido, não tinha a menor comunicação e recebeu aquilo em cheio, aquele oxigénio todo. Aí é que revelou o que era de fato, o que estava incubado.

AR — Trabalhando com tantas equipes diferentes, o Lê Corbusier conseguia trabalhar em colaboração?

LC — Não, ele era inteiramente pessoal. Mesmo a casa do Brasil, em Paris, que é dada como um projeto em colaboração comigo é uma coisa toda dele. Eu fiz um anteprojeto e como tinha que desenvolver o projeto me lembrei de entregar não a ele mas ao atelier dele, ao Wogenscky que chefiava o escritório. Então disse a ele para desenvolver com toda a liberdade. Mas um belo dia estava no hotel e recebo um telefonema do Sul da França, do Lê Corbusier, que me diz: “Como você entregou ao atelier, o atelier sou eu, não tem cabimento entregar ao atelier.” Então eu disse: “Achei despropositado entregar a você para desenvolver um projeto meu. Achei falta de sensibilidade.” E ele: “Não, não, eu é que vou ficar por trás disso.” E fez um projeto novo. Houve muita exigência do pessoal da administração, então ele fez um projeto completamente novo, diferente.

Como sugestão, veja mais fotos da casa do Brasil na Universidade de Paris ou Maison du Brésil onde são mostradas inúmeras fotos, tanto do exterior (fachadas) assim como do interior (corredores, aposentos, salas de estudo, dormitórios, pequeno auditório, etc).

Referências e fonte principal de pesquisa: Arquitetura Revista, de 1987